De onde vem este texto
Em reunião de demanda, erro de forecast vira discussão rápido. O planejamento aponta o ajuste do comercial. O comercial aponta o mercado. O mês fecha sem decisão, e no mês seguinte a conversa se repete.
O que eu vi funcionar foi chegar com o erro já aberto em números: onde o forecast erra, para que lado e se o ajuste manual ajudou. Com isso na tela, ninguém precisa defender opinião. São três cortes, sempre na mesma ordem.
1. Erro por família de produto
É o primeiro corte que eu faço. Um erro de 40% no total não diz onde agir. Separando por família, quase sempre aparece um Pareto: poucas famílias explicam a maior parte do erro.
O peso de cada família no erro é o erro absoluto dela dividido pelo erro absoluto total:
Peso no erro = soma do |real - forecast| da família ÷ soma do |real - forecast| total
| Família (fictícia) | Peso no erro | Acumulado |
|---|---|---|
| A | 30% | 30% |
| B | 24% | 54% |
| C | 16% | 70% |
| D a H | 30% | 100% |
No exemplo, 3 de 8 famílias explicam 70% do erro. A reunião começa por elas.
Para o erro total, eu prefiro o erro ponderado (WMAPE: soma dos erros absolutos dividida pela soma do real) à média simples dos percentuais. Na média simples, um item que vende 2 unidades e erra 1 pesa tanto quanto o item mais vendido.
2. O ajuste manual ajudou? (FVA)
Todo processo de demanda que conheci tinha duas versões do número: o forecast estatístico, que sai do modelo, e o forecast ajustado depois das correções do comercial ou do planejamento. O FVA (Forecast Value Add) mostra se esse ajuste melhorou ou piorou o resultado:
FVA = erro do forecast estatístico - erro do forecast ajustado
| Versão (fictícia) | Erro (WMAPE) |
|---|---|
| Forecast estatístico | 25% |
| Forecast ajustado pelo comercial | 32% |
| FVA do ajuste | -7 pontos |
FVA negativo quer dizer que o ajuste piorou o forecast. Aí a conversa muda: o modelo estava melhor, e o que precisa ser revisto é o processo de ajuste.
Aprendi a tomar três cuidados para o número ser justo com quem ajusta:
- Calcular por família e por quem fez o ajuste. Um ajuste pode ajudar numa família e atrapalhar em outra.
- Olhar pelo menos três meses seguidos. Um mês isolado pode ser exceção.
- Comparar sempre no mesmo horizonte. Eu acompanhava Lag 1 e Lag 3: o forecast feito um mês antes e o feito três meses antes têm erros diferentes por natureza.
3. Para que lado o erro vai (Bias)
O erro absoluto mostra o tamanho do erro. O Bias mostra a direção. Quando o erro vai sempre para o mesmo lado, deixou de ser ruído.
Bias = soma do (forecast - real) ÷ soma do real
Com Bias positivo, o forecast fica acima do real: sobra estoque, a cobertura sobe e aumenta o risco de vencimento, que em produto farmacêutico vira provisão e destruição. Com Bias negativo, o forecast fica abaixo do real e o resultado é falta de produto.
No exemplo do vídeo, o forecast ajustado ficou acima do real em 12 de 12 meses, com Bias de +15%. Doze meses seguidos não são azar. É um ajuste otimista repetido todo mês, e ele aparece direto no estoque.
4. Da análise para a ação
Com os três cortes na mesa, a pauta da reunião muda:
- Quais famílias explicam a maior parte do erro?
- Onde o ajuste manual está piorando o número?
- O erro vai sempre para o mesmo lado?
- Quem faz o quê até a próxima reunião?
Cada família crítica sai com uma ação, um dono e um prazo. Ajustes com FVA negativo são revistos ou deixam de ser feitos. E os mesmos números voltam na reunião seguinte, para mostrar se melhorou.
O que eu levo disso
Medir antes de discutir, e medir sempre do mesmo jeito: mesma métrica, mesmo horizonte, mesmo corte. Essa ideia também está no modelo de qualificação de forecast que construí em Power BI e DAX. Ele classifica o padrão de demanda de cada item (Syntetos-Boylan) e recomenda, por 8 critérios, quando o estatístico pode seguir sem revisão manual. Assim o time gasta tempo onde o risco é maior.
Checklist do fechamento do mês
Juntei os quatro passos, as fórmulas e as perguntas da reunião numa página A4.
Baixar o checklist (PDF, 1 página)
Todos os números deste artigo e do vídeo são fictícios e servem só de exemplo. Nenhum dado de empresa foi usado.